Criação

Criação

Desde os primórdios, o homem busca expressar sentimentos, emoções e ideias através de um misto de percepção de mundo e criatividade utilizando uma grande variedade de linguagens, ou seja, o homem produz “Arte”.

Dentre estas linguagens, a utilização de meios tecnológicos e computacionais têm se destacado através do uso de várias ferramentas, quando manipuladas de forma criativa, permitem aos seus criadores expressar essas ideias e sentimentos.

Mas poderia o homem desenvolver uma rede neural capaz de criar obras de arte por si própria, estimulada por um pôr do Sol, uma notícia triste ou um sentimento?

A pergunta lançada deve ir além.

Caso isso possa ocorrer e uma máquina produza uma obra autoral, pode o homem aceitá-la como arte?

No filme "Eu, robô" (Fox Studios, 2004), Sonny se difere dos demais robôs por expressar emoções humanas.

(Divulgação) – No filme “Eu, robô” (Fox Studios, 2004), Sonny se difere dos demais robôs por expressar emoções humanas.

Impossível responder se é possível e quando ocorrerá, mas uma coisa é certa: já existem bytes sendo inspirados a produzir arte por aí.

Aaron: criador ou obra prima?

Aaron é um software que dá suas pinceladas desde os anos 70. Suas obras poderiam muito bem estar penduradas em galerias por aí.

Seu criador, Harold Cohen, já dedicou pelo menos metade de sua vida buscando dar a ele condição de criar o que apenas alguns espécimes de seres humanos talentosos são capazes de fazer.

O software, escrito em LISP, se utiliza de redes neurais e um dispositivo dotado de pincéis e tintas para lançar nas telas toda a sua genialidade.

Harold, também pintor, passou a se interessar por programação nos anos 60, e a partir deste momento se questionava se seria capaz de desenvolver um mecanismo que, através de regras pré­-determinadas por ele, poderia produzir obras, sem a necessidade de interferência direta de Harold e apenas seguindo as tais regras.

Aaron foi treinado e aprendeu a forma de partes do corpo humano, como estas partes se ligam umas às outras, aprendeu a forma de potes de plantas, árvores, frutas e objetos como mesas e caixas. A partir daí, Harold buscou, ao invés de introduzir um número maior de formas na mente de Aaron, ensinar-lhe a aprimorar sua técnica de desenho.

obra de Aaron - (divulgação)

Obra de Aaron – (divulgação)

Desde então, Aaron tem se mostrado um grande pupilo e se tornou um mestre em cores, a ponto de ser considerado muito mais desbravador do que o próprio mestre Harold.

Por muito tempo o Sr Cohen trabalhou em parceria com sua cria, mas há algum tempo este trabalho em grupo tem sido posto à prova. Primeiro, ele separou o mecanismo de pintura de Aaron, tornando suas obras visuais, sendo apenas coloridas pelo Sr Cohen em pessoa.

Hoje, ele passa por um processo de desenvolver a capacidade de desenho e a cada dia tem se tornado mais independente, chegando ao ponto de criar obras que desagradam até o mestre Cohen mas possuem o estilo de Aaron.

Outra obra de Aaron, colorida por (divulgação)

Outra obra de Aaron, colorida por Harold Cohen – (divulgação)

Mas mesmo com todo este avanço, Harold Cohen reconhece até onde suas influências tornam os resultados de Aaron totalmente autorais. Ele considera que será possível um dia, mas será muito mais complexo do que ensinar um carro a dar voltas pelo bairro sozinho e que não ocorrerá num ano próximo ou neste século.

A parceria ainda está de pé, e hoje, Cohen se utiliza de uma tela touchscreen gigante para colorir no lugar de tintas, o que talvez seja uma nova lição à Aaron.

Van Gogh do Google

Os laboratórios de inteligência artificial da Google também têm buscado desenvolver novos serviços, melhores resultados de buscas e de classificação de imagens na web de forma mais eficiente. Para isso, eles buscam entender como a rede neural trata a base de dados de imagens e como ela funciona.

Descobriram que as redes neurais produzem, a partir das imagens que possui, uma espécie de “ruído branco” de imagens que serve de base para criação de obras inéditas.

Google's Van Gogh em aação - (divulgação)

Google’s Van Gogh em ação – (divulgação)

Os resultados têm se mostrado surpreendentes. Imagens mostram visões intrínsecas, como uma espécie de “alucinação psicótica sob efeito de estimulantes mentais”. Inspirados pelos resultados, misturada à uma pitada de mania de grandeza, apelidaram o projeto como Van Gogh do Google, devido o aspecto psicótico das imagens, já que o pintor holandês sofria desta neurose.

Porém, na tentativa de decifrar como funciona este “ruído branco”, os resultados de momento mostram que as redes neurais buscam, na verdade, produzir algo que seja “agradável aos olhos” e que, apesar de ser algo autoral, não possui sentido, nem é produzido de forma consciente.

Criatividade pura resulta em arte?

A criatividade é, com certeza, uma característica intrínseca da inteligência humana. Com isto em mente, alguns testes com o intuito de comparar a capacidade de criação de uma rede neural com a de um humano mostram que de longe, a máquina vence.

Porém, a pergunta correta a se fazer é: de onde surge e o que torna criatividade em uma obra de arte? E a resposta mais provável é:  o sentimento.

Sendo assim, esta equação se fecharia, se basicamente, o homem fosse capaz de unir a inteligência artificial ao “sentimento artificial”. Daí nasceria o artista absoluto, com capacidade infinita de criação de peças que trazem revolta, alegria, dor, angustia, esperança ou ironia.

Além disso, a própria capacidade de criar do homem é infinita, pois a própria mídia escolhida para expor o sentimento é, em si , uma obra de arte. Desta busca da mídia perfeita, nasceram: a pintura, a escultura, a fotografia, a arquitetura, a literatura… E o que mais?

Como um conjunto de bytes poderia escolher um mictório usado para demostrar seu sentimento?

"A fonte" de Marcel Duchamp, originalmente um urinol, exemplo de transformação contemporânea do conceito de arte.

“A fonte” de Marcel Duchamp, originalmente um urinol, exemplo de transformação contemporânea do conceito de arte. – Domínio Público.

Sobre quem escreve

Colunista

39 anos, Engenheiro Mecatrônico, Uber Partner e estudante de Análise e Desenvolvimento de Sistemas na Fatec São Paulo. Curto esportes, games, internet, animais e meus amigos.

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